Ele odiava os gritos. Já os suportava durante toda sua existência, 16 longos anos de pura resignação em relação aos gritos. Resignado sim, tamanha sua incredulidade e revolta. Não era hipócrita, já havia sim utilizado tão baixa artimanha, o grito, mas apenas em situações onde ele realmente se fazia necessário, raríssimas exceções, realmente o último artifício. Como pode alguém deixar-se tomar conta pelo descontrole a tal ponto, abrir mão tão instantaneamente de toda sua sanidade e simplesmente se deixar levar por um sentimento fugaz, mas poderoso, a ponto de fazer-se explodir em gritos? Os de alegria já o incomodava, mas eram aceitos com relutância. O que o corroia, o dilacerava, o que realmente lhe fazia querer partir-se ao meio de raiva eram os gritos ensandecidos de ódio, os provenientes do puro descontrole e instabilidade de um indivíduo qualquer.
Porque aceitar, se levamos milhões de anos para evoluirmos e conquistarmos o poder da fala, da dialética, da expressão simples, porém objetiva da comunicação verbal em níveis normais ? Porque retroceder e ignorar todo o esforço da natureza em tornarmos mais dignos e humanos, voltar ao cerne animalesco de nossa essência e simplesmente gritar, a plenos pulmões, pra se fazer audível, pra estabelecer á força sua intenção sobre seu alvo ? Não, não é certo. Não é aceitável. Não é justo.
Algo tinha que acontecer, algo tão chocante e revoltante quanto o próprio grito. Se pelo bom-senso ninguém era capaz de compreender algo tão banal, então ele teria de apelar e fazê-los sentir na pele a mesma revolta que ele sentia aos ouvidos.
Virou-se e dormiu. A noite foi tranqüila, plácida e silenciosa, como se deve ser. "Sóbria e profunda, mas absolutamente significante, a noite é realmente admirável. Completamente contrária ao seu irmão dia, ela se faz presente de forma elegante, revelando seus segredos apenas em nuances, nada exagerado, nada espalhafatoso, muito menos gritante, não, a noite é absoluta e compenetrada, reina sobre todos com sua coroa escura cravejada de brilhantes e sua mão leve, porém implacável. Não aceita desaforos, é calma mas não perdoa, revela qualquer deslize fazendo-o ecoar e retumbar por toda sua majestosa escuridão. Realmente a noite é de se admirar," pensou ele.
Acordou exatamente ás 6:30 com o barulho de seu despertador e com os feixes de luz inundando seu quarto pelas frestas da janela veneziana. Mantendo a quietude do momento, começou a se arrumar pra escola com a luz do quarto ainda apagada, da forma como gostava. Eis que a porta de seu quarto é irrompida violentamente por sua irmã, que comete o inocente delito de adentrar seus aposentos sem ser convidada, e o pior, aos berros, anunciando o horário de 6:45 da manhã e advertindo sobre um possível atraso.
- "Será que você é incapaz de falar ao invés de gritar, sua aborígene !?" Indagou ele em revolta.
- "Abo o que ?? Anda, você vai se atrasar, chega de falar difícil e se troca que o ônibus está pra chegar". Retrucou a irmã.
Sim, mesmo sendo uma ignorante e sem ter a intenção, ela provou logo em seguida saber se comunicar em tons brandos e audíveis. Justamente por isso, por ela ter essa capacidade e mesmo assim optar antes pelo grito, ele agora se enchia de raiva e indignação interna. "Maldita seja! Julga minha inteligência e minha integridade com seus gritos horríveis e desnecessários." Falou ele pra si mesmo e foi pra escola.
Na escola ele deparou-se com a desagradável realidade: estava cercado de animais extravagantes e vigorosos, em plena puberdade e capazes de reproduzir a qualquer momento e sem a menor cerimônia gritos de todas as intensidades e tons possíveis, dos mais finos e esganiçados até os mais grossos e potentes, com toda a pompa que os hormônios da idade lhes podia conferir. Era o verdadeiro pandemônio, a babilônia em chamas, o apocalipse deliberado e supervisionado por indecentes hipócritas, que nada faziam para controlar aquela orgia sonora que tanto o incomodava. Agora a raiva e o sentimento de incredulidade superavam os níveis alarmantes, e ele estava prestes a cometer uma loucura. Era capaz de gritar por horas seguidas, tamanho seu ódio em relação a tudo aquilo, mas não, ele jamais se sujeitaria a descer a esse nível. Compenetrou-se, e se colocou a pensar. Realmente algo deveria ser feito. O mal havia de ser cortado pela raiz. Isso! Era exatamente isso, literalmente isso. Cortar o mal pela raiz.
Com o marcar do ponteiro do relógio em 12:30h, o sino tocou e aquela fundação maldita que recebia o nome de escola se inundou mais uma vez de gritos de alegria e alívio, vindos de todos os lados. "Era evidente que os chimpanzés reagissem assim ao final das aulas" pensou ele. "Absorver conhecimento em meio ao silêncio, tendo apenas a voz de quem ensina como som era realmente uma tarefa impossível para esses desgraçados. Agora a aula acabou e eles terão o resto do dia inteiro para gritar sua ignorância por aí". Concluiu.
O ônibus que o conduziria de volta pra casa o aguardava em frente á escola, recheado de estudantes. Ele parou em frente a porta, e com uma gargalhada seca virou-se e decidiu por voltar pra casa a pé. Os vinte e dois quarteirões de caminhada em baixo do sol castigante daquele dia de verão eram com certeza muito menos torturantes que a viagem de poltronas confortáveis, ar-condicionado e aproximadamente 48 demônios gritalhões disfarçados de estudantes significava dentro do ônibus.
Em seu caminho de volta, ele optou pelas ruas mais calmas do bairro residencial. Casinhas charmosas, cheias de verdes árvores e plantas, garantiam o sossego necessário e que ele tanto merecia. Divertiu-se vendo crianças brincando com água nas varandas, com belos cachorros correndo nos gramados e com doces senhoras lavando suas calçadas.
Tudo parecia enfim, se não normal, um pouco decente. Sem grandes acontecimentos, sem atos bruscos e finalmente sem gritos. Agora neste quarteirão, que já devia ser o de número 15 da grande caminhada, só restavam ele, o sol, as árvores, o sublime canto dos pássaros e a calmaria agradável daquele momento. Sentiu-se pleno. Avistou um banco de madeira em frente á um jardim de uma residência e resolveu sentar-se um pouco, ler um livro e aproveitar aquela raridade. E então o mundo tornou-se perfeito. Se dependesse dele, o tempo podia parar por ali, toda a existência humana, toda a história, a geografia, as ciências, tudo, podiam ter aquele tranqüilo fim, cheio de paz,cheio de alegria e plenitude.
O mundo era bom sim, a vida era maravilhosa e momentos como aquele estavam ali para provar isso. Nada podia atrapalhar aquilo. Nada podia irritar aquele coração que agora se encontrava pleno de felicidade, batendo forte em pleno regozijo. O que significavam os gritos agora, se já não eram mais audíveis? Não, eles nem se quer existiam mais, faziam parte de um passado obscuro, mas felizmente remoto, apagado, e ao que tudo indicava, em breve esquecido. Sim, que maravilha! Há muito tempo ele não se sentia assim, e isso merecia uma grande comemoração. Ele faria algo grandioso para mostrar a todos sua felicidade, e todos haveriam de se juntar a ele e comemorar aquele dia precioso. Mas o que? O que poderia ilustrar toda a nobreza destes simples sentimentos de felicidade ? "Há, eu posso começar por...." BLAM! -
A porta da frente da casa onde ele se encontrava havia sido escancarada e batera com ruidosa violência contra a parede. Uma corpulenta senhora, de vestido amarelo floral, sandálias marrons onde os obesos pés se espremiam por entre as tiras de couro, óculos fundos e cabelos desengonçados tingidos de rubi, acabara de sair de dentro de sua casa. Ele olhou assustado e apreensivo á aquela movimentação, e pôde de longe sentir os pulmões velhos da senhora começarem a se encher de ar, dando a ela o fôlego necessário para, inescrupulosa e inadvertidamente, começar a gritar:
- Ruth ! Será o benedito?? Será que você tem que me colocar louca toda vez que te chamo pra me acompanhar até o mercado?! Anda logo com isso e vem, mulher!!
Ele agora olhava atônito àquela cena. Não teve muito tempo de pensar, pois ela se colocou a gritar novamente:
- Ruth ! Ruth ! Eu sei que você está velha, mais precisa de toda a eternidade pra calçar uma sandália?? Eu mereço ficar aqui fora plantada esperando sua boa vontade, Ruth ?? Mereço??
Seu coração agora batia forte, descompassado. Suas veias das têmporas saltavam e o suor começava a minar de todos seus poros. Seria possível aquilo estar acontecendo? Seria necessária toda aquela gritaria para tirar a maldita Ruth de dentro da casa, apressada, para ir ao mercado? Não era possível... ela recomeçara:
- Ruth eu já não te suporto mais!! Isso é uma humilhação, você me faz de PALHAÇA! Tenha dó, tenha piedade de mim, sua DESGRAÇADA!! Quando meu irmão morreu me fez prometer que iria ficar ao seu lado, mas que fardo pesado, que maldição, que bola de ferro ele acorrentou ás minhas canelas, estou fadada á desgraça por sua causa, Ruth, uma longa velhice de torturas ao seu lado, eu NÃO MEREÇO ISSO RUTH !! EU NÃO MEREÇO !
A velha senhora se inflamava a cada palavra que proferia. A raiva tomava conta dela e a fazia gritar a plenos pulmões e cada vez mais alto, a medida que ela continuava a falar e sua cunhada Ruth não aparecia. Que tanto esta maldita velha tinha pra fazer com toda essa pressa de ir ao mercado? Iriam, por acaso, as mercadorias sair correndo por entre as gôndolas e em direção a rua, para nunca mais voltarem, fazendo assim ela perder suas compras a não ter o que servir no jantar? Existia alguma razão ou algum motivo plausível que justificasse toda essa gritaria?? E Ruth ainda não saiu, e a senhora ruiva não cessou:
- Ruth eu espero sinceramente que você esteja demorando tudo isso por estar morta! Espero que algum mal súbito a tenha acometido ai dentro e me tenha poupado de sua falta de respeito! Porque se você ainda estiver viva e continuar assim, Ruth, quem vai morrer sou eu!! De DESGOSTO!!
"Com que direito essa maldita velha enche seus pulmões de ar e faz vibrar suas velhas e engorduradas cordas vocais dentro deste pescoço enrugado, e irrompe o equilíbrio das coisas para gritar desta forma todas essas injúrias contra Ruth ? Que entre lá dentro e resolva a situação, oras!" Pensava ele, em puro ódio, enquanto seu corpo todo tremia."Se houvesse ao menos alguma beleza nisso tudo, algo que justificasse, mas não, essa maldita anciã quer conturbar a ordem e inundar o ar com seu estridente grito vindo de sua velha e fétida boca simplesmente por estar descontenta com a situação! Ela tem que calar, ela TEM QUE CALAR!" Voavam os pensamentos na mente dele, e ainda tremendo de ódio, ele abriu sua mochila e sem pensar enquanto agia, pegou seu estilete e começou a caminhar em direção á velha, que ainda gritava:
- Sim Ruth, você pode pensar que estou exagerando, mas não, eu prefiro a morte! EU PREFIRO A MORTE!! E quem é você, menino? QUEM É VOCÊ? SAIA JÁ DAQUI, NÃO VÊ QUE JA TENHO PROBLEMAS O BASTANTE?? SAIA DAQUI SEU BASTARDO!! ME DEIXE EM PAZ, DESGRAÇADO !!
E cego de ódio, porém ainda ouvindo perfeitamente os gritos da velha, ele desferiu um golpe certeiro na garganta da idosa senhora, fazendo a lâmina perfurar o pescoço, atravessar as cordas vocais, dilacerá-las e sair do outro lado, silenciando de uma vez por todas aquela insanidade.
E então Ruth saiu, com a sandália ainda em suas mãos, e com um rápido olhar ele pôde perceber o aparelho auditivo nas orelhas de Ruth. Que sorte a dela, não ouvira nada daquilo, havia sido poupada de todo o transtorno por uma abençoada deficiência auditiva. Mas Ruth ainda enxergava muito bem, e ao ver sua cunhada estirada no chão, com a garganta aberta ainda jorrando sangue, e um menino parado bem a sua frente, com uma fria lâmina ensangüentada em suas mãos, Ruth não teve tempo nem de gritar, pois a essa altura a consciência já a deixara e com um simples movimento ela caíra desmaiada no chão.
Ele agora via as reais proporções do fato. Ele não mais ouvia gritos, tudo estava silenciosamente calmo, mas o sangue em suas mãos denunciava o acontecido.
Absolutamente perplexo, ele olhou pro chão e viu o que acabara de fazer. Sentiu um arrepio congelar todo seu corpo, largou o estilete que caiu ruidosamente no chão. As mãos, levou á boca em meio a seu desespero, um nó gigante na garganta quase o impedia de respirar, mas em seguida sentiu seus jovens e potentes pulmões se encherem de ar, a boca se abrir largamente e da garganta irromper, ironicamente, o mais horrível, ruidoso, comprido e desesperador grito que ele jamais ouvira em toda a sua vida.